Cinco meses antes de fazer o Caminho de Santiago, comecei a caminhar pelo meu condomínio todos os dias de manhã e a noite por uma hora para amaciar o tênis e começar a me preparar fisicamente. Também pratiquei Gravity Pilates cinco vezes por semana até o dia da viagem para fortalecer a musculatura. Pretendia criar resistência, me acostumar com caminhadas mais longas e ficar com a saúde em dia.
Todo dia, enquanto caminhava, ouvia meu ipod com uma seleção de músicas que fiz para ouvir durante o caminho. Procurei escolher músicas que tivessem algum significado pra mim. Selecionei as que mais marcaram minha infância, minha adolescência, minha juventude e minha vida adulta. Sou uma pessoa muito emotiva e sempre faço conexões entre lembranças e emoções. Tudo ligado aos cinco sentidos me remetem à memórias afetivas ligadas a momentos, pessoas, épocas ou alguma outra coisa.
Minhas caminhadas matinais eram um verdadeiro momento de relaxamento e projeção. Quase uma meditação. A cada passo, eu sonhava e imaginava como seria o meu Caminho. Tenho o privilégio de morar em um lugar com uma linda área verde, rodeada de pássaros, árvores frutíferas e flores magníficas. Os dias lindos e ensolarados de outono davam uma cor especial às minhas manhãs. A música me transportava para outra dimensão. Eu me desligava do mundo real, saía do modo automático e entrava no meu mundo interno. Passei a praticar a contemplação todos os dias e reparar na beleza do que existia à minha volta. Passei a ver o que antes eu não via. Comecei a aguçar os meus sentidos e praticar também o poder da gratidão. Comecei a agradecer por tudo que já tive e tenho na minha vida.
Mentalmente, comecei a pensar em todas as pessoas que por algum motivo foram importantes pra mim. Eu ia “escrevendo” cartas para cada um delas no meu pensamento pedindo perdão ou perdoando, agradecendo ou reconhecendo, explicando ou entendendo muitos acontecidos na minha vida. Eu estava buscando compreender e fazer as pazes com todos os meus sentimentos. Percebi que meu Caminho já havia começado. Entendi que no momento em que decidimos fazer a peregrinação à Santiago, transformações incríveis começam a acontecer dentro da gente. É um lindo processo.
Nos meses que antecederam a viagem, fui me preparando emocionalmente, fisicamente e economicamente para a realização do meu grande sonho. Organizei tudo com antecedência para não ter imprevistos. Tudo aconteceu conforme programado. Tirando o meu computador, o meu celular e o meu flash que resolveram estragar um mês antes da viagem. Dependo dessas três ferramentas para trabalhar e ganhar dinheiro. Isso gerou um enorme custo extra não programado. Mas nada me desanimou ou me fez desistir. Encontrei soluções para contornar os três problemas e no final, deu tudo certo.
Uma semana antes de viajar, decidi começar a comer o dobro do que comia para ter energia extra e aguentar os primeiros dias de caminhada. Todo mundo dizia que eram os dias mais difíceis porque o corpo ainda não está acostumado e é preciso estar preparado. Como sou magrinha, ouvi muita gente dizer que eu não conseguiria. Não me importei com a opinião alheia e nem deixei que isso me abalasse. Eu queria provar pra mim mesma que eu era capaz. E mesmo que eu não conseguisse, tentar já é mais do que não realizar. Eu daria o meu melhor e faria tudo que estivesse ao meu alcance para atingir meu objetivo. O maior limite está na mente e o mais importante eu já havia feito. Tive a coragem de não apenas sonhar, mas de dar o primeiro passo para tornar esse sonho uma realidade.
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